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A muralha da peste

Por Priscila Yukimi



Andre Brink


"Por entre as folhas vê o tremendo azul do céu, em azul tão inflexível que traz lágrimas a seus olhos, tão violento que faz suas vísceras queimarem. É um instante tão nu que ela sabe que levará a vida inteira para fazer uma trégua com ele. Um desejo de fome, uma sede implacável, uma chama, uma alegria, uma tristeza tão insuportável que ela fecha as mãos com força, sentindo as unhas afundarem nas palmas. Por causa daquele azul. Porque não há fim para ele."

Sobre o Suicídio

H. L. Mencken


O número de suicídios está aumentando, disse-me outro dia um inteligente papa-defuntos. Sem dúvida, uma boa notícia para a sua profissão, combalida ultimamente pelos progressos da medicina e quase tanto pela feroz competição em suas próprias fileiras. É também uma boa notícia para aqueles românticos otimistas que gostam de acreditar que a espécie humana é capaz de atos racionais. O que poderia ser mais lógico do que o suicídio? O que poderia ser mais despropositado do que continuar vivo? No entanto, todos nos agarramos à vida com desesperada devoção, mesmo quando o que resta dela é palpavelmente frágil e cheio de agonia.

Em parte, este frenesi absurdo tem suas origens na imaginação humana ou, como poderia ser chamada mais poeticamente, na razão humana. O homem, tendo adquirido a alta capacidade de visualizar a morte, visualizá-a como algo doloroso e horrível...

Passo por cima das objeções teológicas à autodestruição por serem muito sofísticas para merecerem resposta séria. Desde o começo, o cristianismo pintou a vida na terra como algo tão triste e vazio que seu valor tornou-se indistinguível do de uma merdinha. Então, para que aferrar-se a ela? Simplesmente porque sua inutilidade e dissabores são partes da vontade do Criador, cujo amor por Suas criaturas consiste curiosamente em torturá-las.

É difícil, senão impossível, descobrir qualquer razão lógica ou probatória, que não se desmascare instantaneamente como cheia de falácias, para se continuar vivo. A sabedoria universal do mundo já concluiu há muito tempo que a vida é uma maldição. Consulte um filósofo proverbial de qualquer raça e você o verá falando da futilidade da batalha mundana. Se você despreza a sabedoria popular, dê uma espiada no seu Shakespeare: suas peças escorrem um pessimismo de ponta a ponta. Se há uma ideia geral nelas, é a de que a existência humana é uma penosa futilidade, apagável como uma vela.

No entanto, nos atrelamos a ela de uma maneira atabalhoadamente fisiológica — ou, para ser mais preciso, patológica — e até tentamos recheá-la com pomposas cantilenas. Todos os homens verdadeiramente sensíveis lutam poderosamente pela distinção e pelo poder, pelo respeito e inveja de seus semelhantes, pela admiração de uma interminável série de carcaças portando aminoácidos em rápida desintegração. E para quê? Se eu soubesse, certamente não estaria escrevendo livros neste infernal verão americano; estaria exposto numa sala de cristal e ouro, e as pessoas pagariam 10 dólares para me contemplar através de buraquinhos.

Houve tempo em que imaginei que os homens trabalhavam em resposta a uma vaga necessidade interior de se exprimir. Mas aquela era provavelmente uma teoria capenga, porque muitos dos homens que mais trabalhavam não têm nada a dizer. Uma hipótese mais plausível começa a brotar agora: os homens trabalham apenas para escapar à deprimente agonia de contemplar a vida — e seu trabalho, assim como o seu ócio, é uma comédia-pastelão, que só lhes serve para que eles escapem da realidade. Tanto o trabalho como o ócio, normalmente, são ilusões. Nenhum deles serve a qualquer propósito sólido e permanente. Mas a vida, despida dessas ilusões, torna-se logo insuportável. O homem não consegue ficar de mãos abanando, contemplando o seu destino neste mundo, sem ficar desvairado. Por isto inventa formas de tirar sua mente deste horror. Trabalha, diverte-se. Acumula aquele grotesco nada, chamado propriedade. Persegue aquela piscadela esquiva da fama. Constitui uma família e dissemina a sua maldição sobre ela. E, todo o tempo, a coisa que o move é o desejo de se perder de si mesmo, de se esquecer de si mesmo e de escapar à tragicomédia que é ele próprio.

Fundamentalmente, a vida não vale a pena ser vivida. Assim, ele cria artificialidades para fazê-la parecer que vale. E também por isto erige uma espalhafatosa estrutura para esconder o fato de que ela não vale. O fato básico sobre a existência humana não é o de que seja uma tragédia, mas o de que é uma chatice. A objeção a ela não é a de que seja predominantemente penosa, mas a de que lhe falta sentido. O que a espécie terá pela frente? Os próprios teólogos não conseguem ver nada, exceto um vazio cinzento com alguns fogos de artifício irracionais no fim.

Falo como um daqueles de quem se poderia dizer, estatisticamente, que levou uma vida feliz. Trabalho até dizer chega, mas o trabalho é mais agradável para mim do que qualquer coisa que eu possa imaginar. Não tenho consciência de quaisquer desejos arrebatadores e inatingíveis. Não quero ter nada que não possa ter. Mas fico firme em minha conclusão, às portas da senilidade, que tudo não passa de uma grandiosa futilidade e nem ao menos é divertida. O fim é sempre a vanglória, geralmente sórdida e sem o mínimo toque de nobreza do patético.

Os medíocres continuam. Neles repousa o segredo do que se chama contentamento, a capacidade de deixar o suicídio para o dia seguinte. Eles próprios não têm significado, mas, pelo menos, oferecem uma saída para escapar da paralisante realidade. O objetivo central da vida é simular a extinção. Berramos demais contra a grandiloquência errada.

Desilusão


Confesso que fiquei totalmente desorientado depois da conversa com este extraordinário indivíduo. Tenho receio de estar ainda em estado de contar o caso de tal modo que venha a afetar outras pessoas como aconteceu comigo. Provavelmente, esse efeito foi devido em grande parte à candura e ao tom amistoso com que um desconhecido se abriu ante mim.


Reparei no desconhecido, pela primeira vez, há cerca de dois meses, numa tarde de Outono, na Piazza di San Marco. Andava pouca gente na rua; mas na espaçosa praça, as bandeiras ondulavam impelidas pela brisa marítima, diante dessa suntuosa maravilha de cor e linha que se ergue com um luminoso encantamento contra um sol ligeiramente azulado. Por detrás da porta principal, uma rapariga estava a deitar milho aos pombos que acorriam, em nuvens cada vez mais numerosas, de todos os lados. Um quadro alegre e festivo.


Encontrei-o na praça e estou ainda a vê-lo nitidamente enquanto escrevo. Era bastante abaixo da estatura média e um pouco curvado, passeando com vivacidade e agarrando a bengala atrás das costas. Usava um chapéu de coco, um casaco leve de Verão e umas calças escuras listradas. Não sei por que, tomei-o por um inglês. Tanto podia ter trinta anos como cinquenta. O seu rosto estava bem barbeado, com um nariz grosso e uns olhos negros cansados; em redor da sua boca brincava constantemente um sorriso inexplicável e, de certo modo, simples. Mas, de vez em quando, olhava em volta inquieto, depois punha os olhos no chão, murmurava algumas palavras para si, sacudia a cabeça e caía de novo no mesmo sorriso. Deste modo caminhava na praça, perseverante, de um lado para o outro.


Depois desse primeiro encontro, passei a reparar nele todos os dias; porque me parecia não ter outra ocupação além de passear para baixo e para cima, trinta, quarenta ou cinquenta vezes, com o bom ou o mau tempo, sempre só e sempre com aquele extraordinário aspecto.


Na noite que pretendo descrever tinha havido um concerto por uma banda militar. Eu estava sentado numa das pequenas mesas do café Florian que estavam espalhadas na Piazza; e quando, após o concerto, a multidão começou a dispersar, o meu desconhecido, com o seu habitual sorriso vago, sentou-se numa cadeira livre perto de mim.


A noite seduzia, o cenário tornava-se cada vez mais sereno, em breve todas as mesas ficaram vazias. A majestosa praça ficou envolvida em paz, o céu, por cima, multiplicou-se em estrelas; uma grande meia lua pendia sobre a espetacular fachada de San Marco. Eu tinha estado a ler o jornal, de costas viradas para o meu vizinho, e estava para lhe ceder o campo quando fui obrigado, pelo contrário, a virar-me na sua direção. Apesar de não ter ouvido nenhum som, ele começou subitamente a falar:


- "Está em Veneza pela primeira vez, senhor?", perguntou ele, num francês bastante mau. Quando tentei falar-lhe em inglês, ele continuou em correto alemão, falando em voz baixa, áspera e tossindo frequentemente para a tornar mais clara.


- "Está vendo tudo isto pela primeira vez? Concordou com as suas esperanças? Ultrapassou-as? Não a tinha imaginado mais bela do que na realidade é? Na verdade? Não estará a dizer isso com o fim de parecer feliz e digno de inveja? Ah!" Ele inclinou-se para trás e olhou para mim, pestanejando rapidamente com uma expressão inexplicável e serena.



A pausa que se seguiu durou algum tempo. Eu não sabia como havia de continuar a conversa e uma vez mais ia partir quando ele, precipitadamente, se inclinou para mim.



- "Sabe, meu caro senhor, o que é a desilusão?", perguntou, num tom baixo e apressado, agarrando a bengala com ambas as mãos.

- "Não o mau êxito em pequenos assuntos insignificantes, mas a desilusão grande, geral, que engloba tudo, tudo o que faz parte da vida? Não, claro, não sabe. Mas eu tenho sido acompanhado por ela desde a juventude; ela tornou-me solitário, infeliz e, não o nego, um pouco excêntrico.



O senhor não pode, claro, compreender de repente o que eu quero dizer. Mas devia. Peço a sua atenção durante alguns minutos. Porque se isto pode ser contado, é possível fazê-lo em poucas palavras. Posso começar por dizer que descendo duma família de clérigos, numa pequena cidade. Em nossa casa reinava a absoluta limpeza e o patético otimismo dum ambiente inteligente. Respirávamos uma atmosfera estranha, cheia de retórica de púlpito, de grandes palavras para o bem e o mal, belas e desprezíveis, que eu odiava amargamente — são elas mesmo, talvez, a causa de todos os meus sofrimentos.



Para mim a vida consistia inteiramente nessas grandes palavras; porque não conhecia mais do que as grandes emoções infinitas, metafísicas que elas despertavam em mim. Do homem, eu esperava a virtude divina ou a horrenda perversidade; da vida, ou a beleza mais arrebatadora ou o mais completo horror; e estava cheio de avidez por tudo isso e de uma saudade profunda, atormentada, por uma realidade mais ampla, por uma experiência não importa de que gênero, fosse uma ventura gloriosa e intoxicante ou uma angústia indizível.



Recordo, senhor, com uma dolorosa nitidez, o primeiro desapontamento da minha vida; e rogo-lhe que observe que este não tem nada a ver com o malogro de esperanças particulares, mas com um triste acontecimento. Uma noite, houve um incêndio em casa de meus pais, quando eu pouco mais era que uma criança. Espalhou-se insidiosamente até que o primeiro andar ficou em chamas, chegou ao meu quarto e não tardou a alcançar as próprias escadas. Fui eu quem o descobri, e lembro-me que comecei a berrar pela casa, batendo as palmas: 'Fogo, fogo!' Sei exatamente o que disse e que sentimentos respiravam nas minhas palavras, ainda que nessa altura dificilmente teriam aflorado à minha consciência. 'Então isto', pensei, 'é um fogo. É afinal, como ter a casa em chamas. Tanta coisa para isto?'



Deus sabe que era um caso bastante sério. Toda a casa ardeu e apenas a família foi salva com grande dificuldade, e eu cheguei a sofrer algumas queimaduras. E teria sido falso dizer que a minha fantasia poderia ter pintado alguma coisa pior do que o incêndio de minha casa. No entanto, devia ter existido em mim alguma ideia vaga dum acontecimento ainda mais horrível, em comparação com o qual a realidade parecia insípida. Este incêndio foi o primeiro grande acontecimento da minha vida. E deixou-me defraudado na minha esperança de coisas horrorosas.



Não receie que eu continue a contar-lhe pormenorizadamente os meus desapontamentos. Basta-me dizer-lhe que alimentei cuidadosamente as minhas magníficas esperanças na vida com o conteúdo de um milhar de livros e com as obras de todos os poetas. Ah, como aprendi a odiá-los, esses poetas que pintavam as suas grandes palavras em todas as paredes da vida — porque não tinham poder para as escrever no céu com lápis mergulhados no Vesúvio! Acabei por pensar que todas essas grandes palavras eram uma mentira ou uma troça.



Os poetas extáticos têm dito que a palavra é pobre: 'Ah, quão pobres são as palavras', cantam eles. Mas, não, senhor. As palavras, julgo eu, são ricas, são extraordinariamente ricas, comparadas com a pobreza e as limitações da vida. A dor tem os seus limites: a dor física, na inconsciência, a mental no torpor; não difere da alegria. A nossa humana necessidade de comunicação encontrou uma maneira de criar sons que se estende para além destes limites.



É minha a culpa? Será erro meu que certas palavras possam correr e acordar em mim a intuição de sensações que não existem?


Saí para essa vida que eu cuidava tão maravilhosa, esperando que uma, uma única experiência correspondesse às minhas grandes esperanças. Valha-me Deus, nunca o consegui. Tenho percorrido todo o planeta, visto as mais extraordinárias paisagens, todas as obras de arte sobre as quais têm sido pródigas as mais extravagantes palavras. Fiquei perante elas e murmurei: 'É belo. No entanto, será tudo?' Não tenho o sentido do atual. Talvez esteja aí o busílis. Uma vez, num ponto qualquer do mundo, estive junto dum profundo e estreito desfiladeiro nas montanhas. Fitei as rochas erguidas em perpendicular, de ambos os lados e, em baixo, a água rugindo. Olhei para baixo e pensei: 'Que aconteceria se eu caísse?' Mas conhecia-me bem e respondi: 'Se isso fosse acontecer, tu dirias: Agora estou a cair, neste momento estou a cair. Bem, e que tem isso?'



Pode crer que não falo sem experiência da vida. Anos atrás apaixonei-me por uma rapariga, uma moça encantadora, e teria sido a minha alegria protegê-la e acarinhá-la. Mas ela não me correspondia, o que não é nada surpreendente, e casou-se com outro. Que experiência pode ser mais dolorosa do que esta? Que maior tortura haverá do que a agonia árida da luxúria frustrada? Muitas noites fico acordado e de olhos abertos; mas a minha maior tortura reside no pensamento: 'Então esta é a maior dor que podemos sofrer? Bem, e então — é tudo?'



Posso contar-lhe a minha felicidade? Porque eu também fui feliz. E também fiquei desapontado. Não, não preciso de continuar... Para não acumular exemplos, devo esclarecer-lhe que foi a vida em geral, a vida no seu desenrolar triste, desinteressado, normal, que me desapontou — desapontou, desapontou!



'O que é o homem?' perguntou o jovem Werter. O homem, o glorioso semideus? Não falharão os seus poderes justamente onde ele mais necessita deles? Quer adeje em alegria ou se afunde em angústia, não regressou sempre à nua e fria consciência, precisamente no momento em que ele procurava perder-se na imensidão do infinito?



Muitas vezes tinha pensado no dia em que visse o mar pela primeira vez. O mar é vasto, o mar é grande, os meus olhos percorreram a sua imensidão e desejaram libertar-se. Mas havia o horizonte. Por que o horizonte quando eu desejava o infinito da vida?

O meu horizonte pode ser mais estreito do que o de outro homem. Já disse que me falta um sentido do hodierno — ou talvez o tenha demais. Talvez me fartasse ou me tivesse familiarizado cedo demais com as coisas. Estarei familiarizado dum modo demasiado adulterado com a alegria e a dor?



Não acredito nisso e, antes de mais nada, creio naqueles cujas visões da vida são baseadas nas grandes palavras dos poetas — tudo é mentira e covardia. E deve ter observado, meu caro senhor, que há seres humanos tão frívolos e vorazes da admiração e inveja do seu semelhante que pretendem ter experimentado as alturas da felicidade, mas nunca o abismo da dor?



Está escuro e o senhor já deixou de me prestar atenção; por isso aproveito para confessar sem pejo que tentei ser como esses homens e mostrei-me feliz perante o mundo. Mas há alguns anos que o balão desta vaidade foi furado. Agora sou só, infeliz e, não posso negá-lo, um pouco excêntrico.



A minha ocupação favorita é contemplar, à noite, o céu estrelado — é a melhor maneira de afastar a vista da terra e da vida. E talvez me possa ser perdoado o fato de ainda perseverar nas minhas remotas esperanças. Por que sonho eu com uma vida mais livre, onde a atualidade das minhas loucas antecipações se revela sem nenhum torturante resíduo de desilusão? Com uma vida onde não há horizontes?

Assim, eu sonho e espero que a morte venha. Ah, já a conheço bem, a morte, esse desapontamento derradeiro! No meu último momento, direi para os meus botões: 'Então é esta a grande experiência — bem, e que tem isso? Que é isso, no fim de contas?'

Mas a Piazza começa a arrefecer, senhor — isso ainda eu posso sentir — ah, ah! Tenho a honra de lhe desejar uma muito boa noite."




- Thomas Mann

"Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si."

 
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