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A muralha da peste

Andre Brink


"Um dia, quem sabe ainda nessa época, todos os mortos levantariam da terra dura, vermelha de seu sangue, erguendo-se com os aloés florescendo no inverno, e voltariam para aquela guerra.

- Alguma coisa vai acontecer. Tem de acontecer. Tudo isso não pode ter sido em vão. A queimação interna, o sofrimento, o sangue. Só se consegue suportar quando se acredita que é o preço para termos um mundo melhor. Todas as vítimas. Homens, mulheres, crianças. Um dia tudo precisará fazer sentido. E fará."

Cambodia - Angkor

Imune


 H. L. Mencken


A convenção social mais curiosa desta grande época em que vivemos é a de que as opiniões religiosas devem ser respeitadas. Os efeitos maléficos desta convenção devem ser evidentes para todos, mas os dois maiores são:

a) jogar um véu de santidade sobre ideais que violam qualquer decência intelectual; 

b) tornar todo teólogo um libertino com imunidades. O resultado disto é a espantosa lerdeza com que as ideais realmente sólidas circulam pelo mundo. No minuto em que uma dessas ideias põe a cabeça para fora, é inevitável que algum teólogo analfabeto cairá sobre ela, tentando destruí-la. A maneira mais eficiente de defendê-la, naturalmente, seria cair sobre o teólogo com uma clava, porque a única defesa que funciona, na polêmica ou na guerra, é uma ofensiva vigorosa. Mas isto seria considerado falta de modos pelas convenções, e assim os teólogos continuam alegremente o seu assalto à inteligência sem muita resistência, retardando desagradavelmente o conhecimento. 

Não há, na realidade, nada sobre opiniões religiosas que as autoriza a mais respeito que quaisquer outras opiniões. Ao contrário, elas tendem a ser ostensivamente cretinas. Não, não há nada ostensivamente digno a respeito de ideias religiosas. Só conduzem a uma espécie curiosamente pueril e tediosa de asnices. Na melhor das hipóteses, são compiladas dos metafísicos, ou seja, de homens que devotam suas vidas a provar que duas vezes dois não são sempre ou necessariamente quatro. Na pior das hipóteses, cheira a espiritualismo ou a cartomancia. Nem há qualquer virtude visível nos homens que as comercializam profissionalmente. Poucos teólogos sabem alguma coisa que valha a pena, mesmo sobre teologia, e poucos deles são honestos. 

Ele (o teólogo) dissemina a sua cantilena, não inocentemente como um filósofo, mas maliciosamente como um político. No mundo em que vivemos temos de ouvir o que ele diz, não apenas educada e reverentemente, mas babando de boca aberta.

O que os filósofos disseram sobre o fim do mundo

ateus.net (www.ateus.net)
Pitágoras: Se o mundo é par não acabará e se ele for impar acabará.

Heráclito: Tudo é devir. Por isto o mundo sempre acaba, não se pode viver no mundo duas vezes.

Crátilo: Tudo é devir. Por isto o mundo nem sequer chega a existir, não se pode viver no mundo nem uma vez.

Parmênides: O mundo não vai acabar, porque este mundo nunca foi real, pois só o ser é l, o resto é aparência ilusória dos sentidos.

Zenão: Para que o mundo acabe seria necessário percorrer um caminho infinito. Se o mundo acabar é porque não é real, não passa de aparências ilusórias.

Um sofista qualquer: Não desesperem, os homens mais fortes superarão o fim do mundo. Se me pagarem eu ensino como.

Sócrates: Tudo quanto sei é que nada sei sobre o fim do mundo. Você que é a personificação da própria inteligência, poderia me dizer como o mundo acabará?

Platão: Este mundo pode acabar, mas as idéias deste mundo são eternas, tudo que existe são cópias perecíveis delas.

Aristóteles: Todo algo que existe é algo que um dia acabará. O mundo é algo que existe. Logo, este mundo é algo que um dia acabará e dado este mundo, não se pode atribuir a ele o atributo de que ele acabará ou não acabará ao mesmo tempo.

Epicuro: Não ligue para o fim do mundo, viva uma vida de prazer.

Pirro: Não compreendi! O que é o mundo? O que é acabar? O mundo existe? Aliás, você existe? Fiquem calados! Não podemos saber nada.

Agostinho: Já estava escrito que este mundo iria acabar. Creiam que o mundo irá acabar para que entendam que o mundo irá acabar.

Descartes: Se eu pensar, logo o mundo não acabou.

Pascal: O mundo vai acabar, faça já as suas apostas. É melhor crer que o mundo não vai acabar, porque se ele acabar não vai perder nada, porém se ele não acabar, você não será chamado de tolo.

Newton: O mundo continuará existindo até que uma força exterior acabe com ele.

Leibniz: O mundo acaba! De qualquer forma este é o melhor de todos os mundos possíveis.

Voltaire: O mundo irá acabar, vejam como este é o melhor dos mundos possíveis!

Hume: Não há nenhuma razão para que possamos crer que o mundo irá acabar.

Berkeley: Toda vez que dormimos o mundo acaba.

Kant: Se o mundo vai acabar é impossível que um dia saibamos. Tudo que conhecemos são fenômenos não a realidade em si.

Schiller: Sintam a beleza do fim do mundo. Pois este mundo racional é indigno de nossa existência.

Hegel: O fim-do-mundo é idêntico ao não-fim-do-mundo.

Kierkegaard: Para quem está morrendo hoje, não interessa o fim do mundo, e para quem está vivo, do que adianta saber sobre o fim do mundo, se um dia todo homem vai morrer mesmo?

Schopenhauer: Só assim para o sofrimento acabar e colocar um fim no acasalamento humano.

Nietzsche: Se Deus morreu, por que o mesmo não aconteceria com o mundo? O mundo acaba eternamente.

Marx: Eu não disse que a comunidade socialista iria triunfar?

Freud: O fim do mundo é uma obsessão do homem neurótico.

Darwin: O mundo terá um fim desde que não se adapte ao meio.

Comte: O fim do mundo nunca será um fato verificável.

Heidegger: O homem tudo bem, mas o mundo? Não sabia que o mundo era um ser-para-a-morte!

Camus: Eu sabia que a peste iria acabar com o mundo.

Sartre: Se o mundo vai acabar ou não, não faz sentido, tudo é absurdo.

A Filosofia e a Visão comum do mundo

Oswaldo Porchat

Se me disponho a filosofar, é porque busco compreender as coisas e os fatos que me envolvem, a Realidade em que estou imerso. É porque quero saber o que posso saber e como devo ordenar minha visão do Mundo, como situar-me diante do Mundo físico e do Mundo humano e de tudo quanto se oferece à minha experiência. Como entender os discursos dos homens e meu próprio discurso. Como julgar os produtos das artes, das religiões e das ciências.

 
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